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    Escritos Avulsos 

    Do Verão

    Você sabe daquelas férias?
    A que planejamos, juntamos dinheiro
    Traçamos o roteiro.

    A igreja barroca. O museu, os jardins
    O platô sobre o mar
    E a vila remota também.

    Sim. A viagem dos nossos sonhos
    paga antecipadamente
    Mas que rompemos três dias antes da partida.

    Devolvi os bilhetes
    Repus os tíquetes
    Até a mala emprestada mandei de volta.

    E você, o que fez naquele verão?
    Fiquei em casa vendo filmes
    Comprei livros – não li nenhum.

    Fiz uma horta. Colhi temperos. Tomilho.
    Não tem gosto de nada.
    mas eu punha no arroz assim mesmo.

    E na semana que vem
    O que você vai fazer?
    Andar de bicicleta. Comprei uma.

    A minha é vermelha. Tenho uma azul.
    Sabe que na rua da minha casa, no final
    Quando terminam as casas

    Tem o que?
    Uma praia. E uma vila suspensa
    Mas nunca fui.

    Mas tão perto por que não?
    Era um crime ir sozinho. Esperava
    Para que me apontasse os promontórios
    As ondas enxangues
    O espumar que você diria serem alvos
    De um azul etéreo.
    E que lugar lindo.
    É, olha, pega essa concha
    esse búzio.

    Cuidado que a areia está quente
    Calça meu chinelo.
    É uma onda fragorosa
    Como dessas que só espoucam
    Na memória da gente.
    O barco. O barco vai zarpar.
    Cuidado com o chapéu
    No convés venta.
    As férias foram inesquecíveis.


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    mirra

    fui entrando na igreja
    pra frente e pra atrás
    pra frente e pra atrás
    me sacudia o cardeal.
    antes de evaporar
    e subir as alturas celestes
    vagueei junto a costura da túnica
    entre os sapatos
    sandálias de dedo
    sapatilha com laçarote
    um mocassim marrom bem gasto

    pra frente e pra atrás
    pra frente e pra atrás
    meia preta contei dez
    furadas,  oito.
    sacola no chão e dono ao lado
    ajoelhado
    – entrei na bolsa para ver
    o que continha:
    missal, preservativos, rímel, batom.
    camisa amarfanhada tinha
    blusas de linho nenhuma.

    o cardeal já estava na metade
    da preleção e eu
    pra frente e pra atrás
    pra frente e pra atrás
    sobrevoava a nave
    dez metros no alto
    quando na última fila
    uma cena
    me soprou até lá
    morena, cabeleira acacheada
    alisando nervosa com os dedos

    me embrenhei em suas narinas
    que disse - ah perfume bom. mirra.
    li suas aflições
    quarta-feira antes do trabalho na missa
    coisas de dinheiro?
    três meses de aluguel atrasado
    senhorio a porta
    ordem de despejo.
    subi correndo direto na sala
    de são joão batista e implorei
    intermédio. já fizemos de tudo.

    desci numa chuvarada
    fiz redemoinho
    alaguei as ruas
    da cidade.
    entrei no motor do carro do oficial de justiça
    me praguejou por o deter.
    no terceiro dia depois que a água baixou
    desinundando a rua
    bateu o oficial palmas maleta buzina
    saiu a vizinha irritada
    detinha não mora mais aí não. se mudou.

    é ordem de serviço e de despejo
    ela não pode mais morar nessa casa.
    entrou a vizinha e cacarejou uma galinha no quintal
    – era num subúrbio.
    o oficial antes de voltar a repartição
    passou na igreja a pedir perdão:
    ossos do ofício.
    pra frente e pra atrás
    pra frente e pra atrás
    vinha eu novamente no turíbulo
    quando reconheci aquele rosto

    não do oficial de justiça.
    detinha
    estava agradecendo.
    amigou. mudou de casa
    foi viver com vilma.
    vilma não conheci ainda
    mas pelo que ouvi
    tinha um bar na frente da mercearia
    juntinho da igreja.
    servia pastel e ovo colorido também.
    rabo-de-galo só depois das oito da manhã.

    na placa
    bar da vilma
    letras miudinhas dizendo
    devota de são joão batista
    servimos bem
    para servir sempre
    bar familiar
    almoço
    lanche
    e também sucos e vitaminas
    frutas frescas saborosas nutritivas.

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    estrela d'alva

    na segunda metade do século passado. quando os livros ainda eram forrados de tecido e as bordas guardadas em triângulo.
    apesar do anos de chumbo e ainda que dissidentes fossem trancados em salas escuras vedadas com papel de pão.

    na segunda metade do século passado. quando todos se precaviam em esquecer dos bombardeios recentes – apesar dos minaretes
    não terem sido reconstruídos e lembrassem ainda dos estrondos. pela força do hábito ainda se mantinham as cidades as escuras
    até que o sol raiasse.

    na segunda metade do século passado. quando todos projetavam para o futuro cânticos de liberdade. quando todos já tivessem
    sido alforriados de seus donos e os dogmas fossem cicatrizes vagas. haveria uma herança em nome daqueles que sucumbiram.
    os portais seriam vestidos com fina organza e nos jardins anjos de cimento urinavam água em fontes rococós.

    na segunda metade do século passado. na segunda metade do século passado ninguém ousaria imaginar que os chicotes
    arderiam novamente intolerantes. que as fogueiras subiriam com labaredas mais selvagens e ainda mais ardentes. e que a
    lembrança daqueles porões seria de novo reavivada num ímpeto feroz sequestrando o inocente anjo despido diante do coreto.

    mas eis que da segunda metade do século passado, quando os livros caídos de borco, outros da fila se erguem pela memória dos
    trucidados e pelas cidades que dormiam as escondidas. na primeira metade do século seguinte.



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    a casa

    o estranho fenômeno
    da casa suarenta.
    tinham me alertado
    cuidado. não ouvi.

    tudo ali suspirava
    tudo exalava vapor. dos móveis
    ao interior das paredes
    no encruado do cimento

    até onde respingavam as torneiras
    tudo era nódoa
    tudo um elixir
    um gás quente que emanava

    ardia. ardia a casa inteira
    como se tivesse chorado
    por cinco mil séculos.
    dez mil séculos. cem mil anos.

    uma grinalda eterna. uma noiva
    errante
    uma musa morta. igual a rama de
    samambaia depois que seca

    e fica preta
    e fica oca
    oca. pois então
    mudei para essa casa

    onde todos os batentes despencavam
    onde nenhum alpendre parava de pé.
    fiz ali a tocaia
    – armei minha rede

    e quando choveu
    quando choveu
    até as telhas arderam
    soltando lâminas de vapor.

    minha linda casa construída
    nesse lindo terreno
    esse lugar de chegança
    mas que só diz adeus.


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    eixo


    o tempo, sim
    sei do que se trata. informaram

    que é onde tudo se atrela
    desde arrumar gavetas


    ao nos conhecermos
    e nos deixarmos. nele orbitam


    o nascimento das mariposas
    a extinção dos dinossauros.


    se um cão ladrou ou
    abanou o rabo – mediu-se nele


    o arco do capim dobrado até quando
    meu primeiro filho nasceu.


    da lava ao homem
    sua ida a lua e as galáxias todas


    as moradas ao longo da vida
    ao ultimo suspiro.


    os hiatos são dele prisioneiro
    também os cânticos e as floradas na serra.


    sei do que se trata me informaram
    dos compêndios indecifráveis


    tomos e tratados lhe dedicaram
    perguntas e respostas.


    muitas bocas silenciaram, muitos dedos contritos
    por ele rezaram.


    e até hoje nada se sabe. um enigma
    um espanto um corolário.


    medir de fatos a acontecimentos. as importâncias
    as nulidades. as desserventias.


    ou não medir absolutamente nada, pois também isso
    dele não passa incólume. tampouco resistir


    trará resultado. o senhor dos compassos
    o senhor da vida e da morte


    que também a ela segue
    invulnerável imperscrutável.

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    os atos

    e parece um despropósito que gatos
    arrulhem a almofada ou o pingente da cortina
    distração típica de bichanos
    podemos supor


    e como parecem aos olhos dos bichos
    a refrega diária os apitos dos relógios
    a roupa deitada de molho numa balde
    descorado desde ontem


    ainda que varais pareçam ter sentido
    toalheiros de vime cadeiras de alto espaldar
    duas torneiras numa só pia
    não é muito razoável


    pensaria um periquito de asa cortada
    que espia a casa diurna onde
    três vassouras um rodo e um espanador
    se escondem detrás da porta no quarto de serviço.


    olham com altivez o bichos:
    a barata que logo será morta
    o vidro de inseticida. sorriem as formigas
    carregando como troféu um grão de arroz.


    e de cima do lustre, estarrecidas lagartixas observam
    lentamente a traça que come o tapete
    outra que engole o retrato
    e outra que vai se emaranhar no meio dos lençóis.


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    da ordem. perfeição


           (para denise bottmann, em seu orquidário)

    o que determina
    daquele grão uma árvore e
    a certeza ao inverno sucederá a primavera
    e um dia de chuva outro dia de chuva
    ou sol. tanto quanto tanto faz.


    e se o telhado será suficientemente forte
    para este ou aquele vendaval
    e se tolera a ponte um número específico
    de carros e o peso calculado das gentes
    acrescido também pingos de chuva se chover.


    tantos igarapés se emaranham intricados
    nervuras, nervuras, nervuras
    as terminações nervosas o que determina
    feras soltas rondando
    a mais bela das poedeiras dorme


    o que determina
    o drama das quedas d'água impávidas
    e solenes
    os fossos donde se atiram
    lívidas dormentes dolentes


    a viga cumpriu seu papel e a telha também
    da semente arbusto aragem
    a poedeira escapuliu pela gruta da hiena
    o rio depois de tantos desfiladeiros
    exausto se entregou ao mar.


    o pontilhão levou maria a sua casa
    fez voltar zé menino do trabalho.
    a panela está no fogo e também
    neste exato momento você a janela agora cerra
    e não derrube o vento o vaso.


    nada disso foi determinado
    foi assim e
    de outro jeito
    tomaria outro nome:
    desastre. mas não é o caso.


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    tonha

    bati na porta de zefinha. ela não abriu. achou que ia pedir alguma coisa.
    dinheiro pro gás, uma xícara de arroz. mas zefinha não abriu a porta. ela não ficou sabendo que não ia pedir nada,
    ia chamar ela pra ir na missa de ano. na missa de pedrinho.

    pedrinho era meu filho mais novo. ele não era flor que se cheirasse não. nunca gostou de estudar.
    nem era também coroinha de igreja. era marrento e fazia arrelia. mangava com todo mundo. mas nunca fez mal a ninguém.
    tanto é prova que ajudava judite subir escada. judite era manca. com ela não mangava nem deixava que ninguém arreliasse dela.
    pedrinho era remelento e vivia com nariz escorrendo. doze anos e deu azar.

    tava na frente do bar, ia descer a ladeira no carrinho de rolimã quando tudo aconteceu. o açougue. trom trom trom. mataram doze.
    pedrinho foi o treze. naquela chacina que saiu na tevê e em tudo que foi jornal e que depois não deu em nada, todo mundo sisqueceu.
    mudei de osasco. num aguentei passar na frente do bar todo dia quando ia pro serviço e ver que naquela ladeira meu menino de doze anos,
    tadinho. tadinho.


    zefinha não foi comigo prá igreja. a missa foi linda e cantada. quando fui embora o capelão perguntou pra quem eu tinha ido rezar.
    engolfei e guardei os gemido no peito. fui me embora pensando em pedrinho. e num disse nada não.

    meu nome é tonha, mãe de pedrinho.

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    3:31


    é bonita a palavra
    armistício. tanto quanto
    resiliência
    tanto quando acre
    o gosto na boca se emperra
    nodoso
    no meio de lágrimas
    fincando o breu – ou o gelo


    você põe meias de lã
    e tateia no corredor as escuras
    com a mão apalpa a parede
    procurando o gatilho
    da luz e não acha.
    mas chega a cozinha
    e como as coisas estão no lugar
    encontra o copo, bebe dágua.


    embora a madrugada não seja propícia
    para coisas de esperança
    ou palavras bonitas.
    o abajur você acende. a luz dói
    como relampeio na testa.
    então apaga, volta
    descalço só
    de meias


    e na cama mil tarântulas
    dançam feito móbiles
    fosforescentes
    três centímetros acima do nariz
    não se respira
    não se move.
    resiliência é mesmo uma palavra bonita
    para dizer no escuro


    junto daquela outra mais bonita:
    armistício.
    e o breu.


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    mobiliário

           (para beatriz goulart)

    aceito cadeiras ainda sem
    pés
    mesas mesmo sem tampo
    vasos desfloridos
    e casas sem alicerces são
    bem-vindas.
    também camas, armários,
    botijões de gás
    uma fruteira, um ferro de
    engomar
    tapete de estender a porta e
    prateleiras são muito desejadas.
    aceito candelabros com
    velas em toco
    vitrolas mais que antigas
    e umas duas almofadas
    também.
    mas se a boa vontade
    me trouxer uma rede dessas de
    balanço
    tenho duas árvores
    já crescidas
    no meu quintal
    frente ao mar.

    – o mar ainda não tenho. e

    é o primeiro da lista.


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